O Mercado de Armas Brasileiro em 2025: Entre Restrições e Resistência
O Brasil fechou 2025 com aproximadamente 8,3 milhões de Certificados de Registro de Arma (CACs) ativos, segundo dados compilados pela Polícia Federal. Este número representa crescimento de apenas 2,1% em relação a 2024 — a menor taxa de expansão desde 2019, quando o governo Bolsonaro liberalizou o setor. A desaceleração é direta: os decretos assinados pelo governo Lula entre 2023 e 2024 funcionaram como freio real no mercado que havia crescido 47% entre 2019 e 2022.
O decreto 11.615, publicado em junho de 2023, criou restrições significativas na renovação de CACs e aumentou a burocracia para novas aquisições. Depois vieram as resoluções da ATIBS (Agência Técnica de Inspeção de Produtos de Defesa) endurecendo critérios de importação, e finalmente o decreto 11.991 de dezembro de 2024, que limitou a munição para CACs a 5 mil cartuchos por ano. O impacto nas vendas foi direto e mensurável.
Enquanto 2023 registrou queda de 18% nas vendas de armas de fogo em relação a 2022, 2024 e 2025 mantiveram-se em patamar deprimido. As grandes distribuidoras como CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), SIGMA Munições e Magnum reportaram reduções de 12% a 15% no faturamento comparado ao período 2022-2023. O segmento de munição caiu mais ainda: a restrição dos 5 mil cartuchos anuais afastou compradores ocasionais e manteve apenas o core de proprietários dedicados.
Quem Ainda Compra e Como
Os CACs registrados em 2025 concentram-se em três perfis: proprietários rurais (32%), atiradores desportivos vinculados a clubes (28%) e profissionais de segurança privada (24%). Os restantes 16% são acumuladores, colecionadores e novos entrada que conseguem transpor a burocracia. Este mix mudou pouco desde 2023, mas a proporção de profissionais de segurança cresceu 8 pontos percentuais — indicador de que a demanda corporativa amorteceu a queda geral.
A marca com maior market share permanece sendo a Taurus, com 34% das armas de fogo registradas entre CACs em 2025, seguida por Rossi (17%), Imbel (12%), Girsan (9%) e Walther (8%). Taurus mantém força mesmo com a queda do mercado porque possui produtos de entrada mais acessíveis — revólveres de calibre .38 e .357 — que absorvem novos CACs rurais. Imbel, controlada pelo Estado, aumentou sua fatia em 3 pontos, impulsionada por demanda do segmento profissional.
O segmento de armas importadas encolheu proporcionalmente. Enquanto em 2022 as importações representavam 31% do mercado, em 2025 caíram para 18%. Isso não significa menor quantidade em números absolutos — significa que a restrição às importações foi mais severa que à produção nacional. A ATIBS aumentou prazos para análise de importação de 30 para 90 dias entre 2023 e 2024, e depois para 120 dias em 2025.
Produção Nacional vs Importação: O Tabuleiro Muda
A Imbel produziu 487 mil unidades de armas de fogo em 2024 e projeta 512 mil para 2025 — crescimento de 5,1% ao ano. Taurus, que é privada, não divulga números oficialmente, mas analistas estimam produção entre 380 mil e 420 mil unidades anuais. Juntas, estas duas fabricantes respondem por aproximadamente 68% de todas as armas produzidas e comercializadas no Brasil para o segmento CAC.
A produção nacional é incentivada implicitamente pelos obstáculos às importações, mesmo sem subsídios diretos. Um revólver produzido em Itajubá (MG) pela Imbel ou São Leopoldo (RS) pela Taurus enfrenta 40 dias de tramitação regulatória. O mesmo modelo importado enfrenta 120 dias. Esta diferença temporal é proteção efetiva ao produtor doméstico, e ambas as fabricantes perceberam isso: expandiram linhas de produtos mais simples e robustos, reduzindo dependência de peças importadas.
Empresas menores como .50 Armas (Santa Catarina), Costa Brava (Rio Grande do Sul) e Rossi (tradicional gaúcha, agora sob capital argentino) tentam ganhar espaço em nichos como armas de cano curto e calibres específicos. A produção dispersa entre pequenas fabricantes soma cerca de 120 mil unidades anuais — número estável desde 2023.
O Que Esperar de 2026
As perspectivas para 2026 dependem integralmente de mudanças na regulação. Se o governo Lula mantiver os decretos atuais sem endurecimento adicional, o mercado deve crescer entre 1% e 3% — basicamente acompanhando crescimento vegetativo de CACs que se renovam. A restrição de 5 mil cartuchos anuais já foi absorvida pelo mercado; não causará queda adicional.
Se houver flexibilização — cenário improvável mas não descartável — o crescimento poderia alcançar 8% a 12%. Se o governo implementar novos decretos restritivos, a contração voltaria ao patamar de 2023, com quedas de 15% a 20%. O risco regulatório permanece como principal variável do setor.
Tendências estruturais apontam para consolidação das grandes fabricantes e saída de pequenos players. Imbel deve chegar a 2026 com aproximadamente 28% do mercado CAC. Taurus manterá entre 32% e 35%. Rossi, Girsan e outras marcas médias disputarão os 37% restantes. A importação deve recuar para 14% a 16% do total.
O mercado brasileiro de armas em 2025 não é o de 2019-2022. Mas tampouco é o de 2003-2018, quando as restrições eram ainda maiores. É um mercado em transição, sujeito à vontade política, com fabricantes nacionais fortalecidas e consumidor mais seletivo. Quem achava que liberalização seria permanente está descobrindo que política de armas no Brasil é sempre reversível.

